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Eixo Músculo-Fígado e Miocinas (Irisina, IL-6, Miostatina): A Bioquímica da Remodelação Metabólica pelo Treinamento Resistido

Eixo Músculo-Fígado e Miocinas (Irisina, IL-6, Miostatina): A Bioquímica da Remodelação Metabólica pelo Treinamento Resistido
Neste artigo
  1. 1. O Músculo Esquelético como Órgão Endócrino e a Mecanotransdução
  2. 2. O Eixo de Comunicação Cruzada Músculo-Fígado (Muscle-Liver Crosstalk)
  3. 3. As Três Miocinas Centrais da Remodelação Metabólica
  4. 4. Tabela Comparativa das Principais Miocinas Reguladoras
  5. 5. Remodelação Celular: GLUT4 Independente de Insulina e TMB
  6. 6. Protocolo Prático de Treinamento Resistido para Otimização de Miocinas
  7. 7. Perguntas Frequentes (FAQ)
  8. Referências Bibliográficas e Literatura Científica

Historicamente relegado pela medicina clássica a uma função puramente biomecânica — como um conjunto de alavancas e roldanas responsável pela locomoção, sustentação postural e geração de força física —, o tecido muscular esquelético passou por uma das mais profundas revoluções conceituais da biologia contemporânea.

No início dos anos 2000, as pesquisas pioneiras lideradas pela médica e fisiologista dinamarquesa Bente Klarlund Pedersen e sua equipe no Centre of Inflammation and Metabolism da Universidade de Copenhague redefiniram a compreensão do sistema musculoesquelético. Eles demonstraram experimentalmente que o músculo esquelético é, em termos de volume e massa celular ativa, o maior órgão endócrino do corpo humano.

Quando as pontes cruzadas de actina e miosina se conectam e sofrem encurtamento mecânico sob tensão, o miócito em contração converte estímulos biofísicos em cascatas bioquímicas de alta complexidade (mecanotransdução). Esse processo dispara a transcrição, tradução e secreção sistêmica de centenas de peptídeos bioativos, citocinas regulatórias e fatores de crescimento denominados genericamente Miocinas.

Dentre as inúmeras vias de comunicação endócrina orquestradas pelo músculo ativo, o Eixo de Comunicação Cruzada Músculo-Fígado (Muscle-Liver Crosstalk) desponta como o eixo central de controle da homeostase energética humana. As miocinas liberadas durante e após sessões de treinamento resistido (musculação) viajam pela circulação e atuam diretamente sobre receptores específicos nos hepatócitos, regulando a gliconeogênese, acelerando a taxa de beta-oxidação de lipídios e combatendo a progressão da Esteatose Hepática Associada à Disfunção Metabólica (MASLD).

Neste artigo de referência técnica e profundidade acadêmica, dissecamos as cascatas de sinalização molecular que governam a secreção de miocinas, o papel das três moléculas centrais desse eixo — Irisina, Interleucina-6 muscular (IL-6) e Miostatina (GDF-8) —, a remodelação celular mitocondrial e os parâmetros de prescrição do exercício físico fundamentados na literatura científica internacional.


1. O Músculo Esquelético como Órgão Endócrino e a Mecanotransdução

Diagrama 3D da clivagem da proteína FNDC5 em Irisina e ativação de UCP-1 para browning adiposo

Em um indivíduo adulto saudável, o tecido muscular esquelético representa entre 35% e 45% do peso corporal total e é responsável por consumir a maior fração dos substratos energéticos oxidativos em repouso e em esforço.

Eixo de Comunicação Cruzada Músculo-Fígado

O Paradoxo da Mecanotransdução: Da Força Tensional à Resposta Hormonal

Como uma força física externa (uma barra com anilhas ou halteres) é convertida em um sinal genômico dentro do miócito?

  1. Ativação dos Mecanossensores de Membrana: A tensão mecânica gerada pela contração contra resistência deforma estruturas proteicas especializadas ancoradas no sarcolema, como o complexo distrofina-glicoproteína, as integrinas e a quinase de adesão focal (FAK).
  2. Influxo Transitório de Cálcio Citosólico (Ca2+): A despolarização do sarcolema abre os canais de cálcio do retículo sarcoplasmático via receptores de rianodina (RyR1). A elevação abrupta do Ca2+ citosólico ativa quinases chave, principalmente a CaMKII (Calmodulina Quinase II).
  3. Fosforilação de Sensores Energéticos: Concomitantemente, a quebra acelerada de ATP em ADP e AMP no interior das miofibrilas altera a razão energética intracelular, deflagrando a fosforilação conformacional da AMPK (Proteína Quinase Ativada por AMP) no resíduo Treonina 172.
  4. Indução do Eixo PGC-1α: A ação combinada da CaMKII e da AMPK recruta o coativador transcricional mestre PGC-1α (Receptor Ativado por Proliferador de Peroxissoma Gama Coativador 1-Alfa). Uma vez ativado, o PGC-1α transloca para o núcleo celular e acopla-se a fatores de transcrição específicos, ativando a expressão do secretoma de miocinas.

O miócito deixa de ser apenas uma unidade contrátil mecânica e passa a funcionar como uma glândula endócrina pulsátil de alta potência.


2. O Eixo de Comunicação Cruzada Músculo-Fígado (Muscle-Liver Crosstalk)

O fígado e o músculo esquelético são os dois principais depósitos de carboidratos (na forma de glicogênio) e os reguladores mais dinâmicos do metabolismo de lipídios e glicose no organismo.

Em indivíduos sedentários portadores de obesidade visceral ou resistência à insulina, a comunicação fisiológica entre esses dois órgãos é corrompida:

  • O músculo sedentário apresenta redução no conteúdo de GLUT4 e infiltração de gordura intramiocelular (lipotoxicidade).
  • Essa falha muscular sobrecarrega o fígado com um afluxo excessivo de glicose e ácidos graxos livres não oxidados.
  • O fígado responde ativando a Lipogênese de Novo (DNL) mediada por SREBP-1c e ChREBP, acumulando gotas lipídicas ectópicas no parênquima (esteatose hepática) e perdendo a capacidade de frear a gliconeogênese em jejum.

A Restauração Mediada pelo Treino Resistido

O treinamento de força atua como o principal interruptor epigenético dessa disfunção metabólica:

  1. Redução da Gliconeogênese Desregulada: As miocinas liberadas no exercício sinalizam aos hepatócitos a inativação do fator de transcrição FoxO1, desligando a superexpressão de enzimas gliconeogênicas como a Fosfoenolpiruvato Carboxiquinase (PEPCK) e a Glicose-6-Fosfatase (G6Pase).
  2. Aumento da Beta-Oxidação Hepática: O estímulo do exercício ativa o sensor nuclear PPARα no fígado, aumentando a atividade da enzima CPT-1 (Carnitina Palmitoiltransferase-1) e promovendo a queima acelerada dos triglicerídeos intra-hepáticos acumulados.
  3. Inibição da Secreção de Fetuin-A: A Fetuin-A é uma hepatocina patológica secretada pelo fígado gorduroso que bloqueia os receptores de insulina no músculo esquelético. O treino de força reduz drasticamente os níveis séricos de Fetuin-A, quebrando o ciclo vicioso de resistência à insulina mútua.

3. As Três Miocinas Centrais da Remodelação Metabólica

Dentre as dezenas de moléculas identificadas no secretoma muscular, três miocinas exercem os efeitos mais documentados e reprodutíveis na bioenergética sistêmica: Irisina, Interleucina-6 (IL-6) e Miostatina (GDF-8).


3.1. Irisina: O Hormônio Termogênico e Protetor Hepático

Descoberta em 2012 pelo grupo do Dr. Bruce Spiegelman na Harvard Medical School (Boström et al., Nature), a Irisina é um hormônio peptídico de 112 aminoácidos que mudou a compreensão sobre o gasto calórico humano.

Cascata Molecular de Liberação da Irisina

Síntese e Clivagem Bioquímica

A Irisina não é sintetizada diretamente em sua forma livre. O gene mestre da biogênese mitocondrial, PGC-1α, induz a transcrição de uma proteína precursora transmembrana ancorada na membrana celular do miócito, denominada FNDC5 (Fibronectin Type III Domain-Containing Protein 5).

Durante a sobrecarga de contração muscular, enzimas proteolíticas da família das convertases clivam o domínio extracelular N-terminal da FNDC5. Esse fragmento clivado é lançado na corrente sanguínea como a miocina ativa: a Irisina.

Mecanismos de Ação Sistêmica da Irisina:

  • Escurecimento Adiposo (Browning do Tecido Adiposo Branco): A Irisina liga-se a receptores integrínicos da família alfa-V nos pré-adipócitos do tecido adiposo branco subcutâneo. Essa ligação dispara a transcrição massiva da Proteína Desacopladora 1 (UCP-1 / Termogenina), transformando adipócitos brancos uniloculares de armazenamento em adipócitos beges (Brite) ricos em cristas mitocondriais. A UCP-1 dissipa o gradiente eletroquímico de prótons sem produzir ATP, convertendo substratos lipídicos em calor puro e aumentando significativamente a Taxa Metabólica Basal (TMB).
  • Supressão da Lipogênese Hepática: No hepatócito, a Irisina ativa a via LKB1 / AMPK, fosforilando e inativando a enzima Acetil-CoA Carboxilase (ACC). Isso cessa a síntese de novos ácidos graxos no fígado e reverte os depósitos esteatóticos.
  • Neuroproteção e Eixo Músculo-Cérebro: A Irisina circulante é capaz de atravessar a barreira hematoencefálica, onde estimula a transcrição do BDNF (Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro) no hipocampo, estimulando a neurogênese, a plasticidade sináptica e a proteção contra o declínio cognitivo associado ao diabetes tipo 2.

3.2. Interleucina-6 Produzida pelo Músculo: O Paradoxo Anti-Inflamatório

Na imunologia clássica, a Interleucina-6 (IL-6) é rotulada como uma citocina pró-inflamatória, encontrada em concentrações elevadas no soro de pacientes com sepse, artrite reumatoide e obesidade grave mórbida.

No entanto, as investigações de Bente Klarlund Pedersen desvendaram um paradoxo fascinante: a IL-6 secretada pelo músculo durante o exercício não se comporta como a IL-6 inflamatória dos macrófagos.

A Fisiologia da IL-6 Muscular como Sensor Energético

  1. Pulsatilidade Aguda: Durante uma sessão intensa de treino resistido ou intervalado, a concentração plasmática de IL-6 muscular pode aumentar de 10 a 100 vezes em relação aos valores basais, retornando aos níveis de repouso poucas horas após o término da sessão.
  2. Cascata Anti-Inflamatória Sistêmica: A IL-6 do exercício estimula a produção hepática e leucocitária de citocinas anti-inflamatórias clássicas, como o Antagonista do Receptor de IL-1 (IL-1ra) e a Interleucina-10 (IL-10), enquanto inibe diretamente a produção do Fator de Necrose Tumoral Alfa (TNF-α).
  3. Aceleração da Lipólise: No tecido adiposo periférico, a IL-6 muscular estimula a atividade da Lipase Hormônio-Sensível (LHS/HSL) e da ATGL, mobilizando ácidos graxos livres para serem utilizados como combustível oxidativo pelo miócito.
  4. Captação Hepática e Ressíntese de Glicogênio: No fígado, a IL-6 induz a fosforilação de AMPK, melhorando a sensibilidade hepática à insulina e direcionando a captação de lactato para a ressíntese ordenada de glicogênio.

3.3. Miostatina (GDF-8): O Freio Molecular da Hipertrofia e Inimigo Metabólico

Descoberta em 1997 por McPherron e Lee na Johns Hopkins University School of Medicine, a Miostatina (membro da superfamília do Fator de Crescimento Transformador Beta — TGF-β, formalmente denominada GDF-8) é o mais potente regulador negativo endógeno do crescimento muscular.

Balanço Molecular: Miostatina vs Via mTORC1

Como a Miostatina Bloqueia o Desenvolvimento Muscular e Deteriora o Metabolismo

A Miostatina secretada liga-se aos receptores de membrana ActRIIB e aos correceptores ALK4/ALK5 no miócito:

  • Fosforilação da Cascata Smad2/Smad3: Os fatores de transcrição Smad2 e Smad3 são fosforilados e formam complexos com o Smad4, migrando para o núcleo celular.
  • Bloqueio Direto da Via Akt / mTORC1: O complexo Smad bloqueia a atividade da quinase Akt, desligando a tradução ribossômica e a síntese de novas proteínas miofibrilares.
  • Ativação da Degradação Proteolítica: Concomitantemente, a via Smad superexpressa as ligases de ubiquitina músculo-específicas MuRF1 e Atrogin-1 (MAFbx), acelerando a quebra de filamentos de actina e miosina via sistema ubiquitina-proteassoma.

O Círculo Vicioso do Sedentarismo e da Obesidade

Indivíduos sedentários, com sobrepeso ou diabéticos apresentam níveis cronicamente elevados de miostatina sérica e muscular. A miostatina elevada promove atrofia muscular (sarcopenia), o que reduz a Taxa Metabólica Basal e diminui a área disponível para captação de glicose. Menos músculo ativo gera mais acúmulo de gordura e inflamação, o que estimula ainda mais a transcrição de miostatina.

A Inibição pelo Treino de Força via Folistatina

O treinamento resistido crônico é a intervenção biológica mais eficaz para quebrar esse ciclo:

  1. A sobrecarga de força reduz a expressão gênica do mRNA de miostatina no músculo em até 40% a 60%.
  2. Concomitantemente, a contração induz a síntese e secreção de Folistatina, uma glicoproteína endógena que atua como antagonista biológico da miostatina: a folistatina liga-se fisicamente à miostatina na circulação, neutralizando sua capacidade de se acoplar aos receptores ActRIIB e permitindo que o complexo mTORC1 opere sem freios moleculares.

4. Tabela Comparativa das Principais Miocinas Reguladoras

A tabela abaixo resume as propriedades moleculares, gatilhos de liberação e desfechos metabólicos das principais miocinas caracterizadas na literatura médica:

Miocina Precursor / Gene Gatilho de Secreção Primário Órgão / Tecido Alvo Vias Enzimáticas Envolvidas Impacto Metabólico Sistêmico
Irisina FNDC5 (Cromossomo 1) Sobrecarga mecânica contínua + Ativação de PGC-1α Tecido Adiposo Branco (WAT) e Fígado Receptores alfa-V integrina, cascata p38 MAPK e AMPK Desacoplamento mitocondrial por UCP-1 (browning), reversão de MASLD e elevação da TMB
IL-6 Muscular Gene IL6 (Cromossomo 7) Esvaziamento de glicogênio muscular + Influxo de Ca2+ Tecido Adiposo, Fígado e Ilhotas Pancreáticas Ativação de AMPK e p38 MAPK; inibição direta de NF-κB Aceleração da lipólise de adipócitos, modulação anti-inflamatória e homeostase glicêmica
Miostatina (GDF-8) Gene MSTN (Cromossomo 2) Sedentarismo crônico, imobilização e TNF-α elevado Miócito esquelético autócrono/parácrino Receptores ActRIIB / ALK4/5, fosforilação de Smad2/3 Freio do crescimento muscular, atrofia proteassômica, sarcopenia e resistência insulínica
Folistatina Gene FST (Cromossomo 5) Treinamento de força excêntrico + Aporte proteico Músculo e Circulação Sistêmica Neutralização estequiométrica da Miostatina e GDF-11 Desrepressão da via Akt/mTORC1, estímulo hipertrófico e preservação de massa magra
BDNF Muscular Gene BDNF (Cromossomo 11) Contração muscular repetida + Sobrecarga de força Músculo local e Sistema Nervoso Central Receptores TrkB e sinalização de sobrevivência neuronal Oxidação de gordura intramiocelular e neuroplasticidade no hipocampo

5. Remodelação Celular: GLUT4 Independente de Insulina e TMB

Um dos maiores benefícios metabólicos imediatos da contração muscular reside na sua capacidade de burlar o defeito de sinalização da insulina.

A Translocação de GLUT4 por Dupla Via

Em um paciente com diabetes tipo 2 ou resistência insulínica grave, a via clássica da insulina (Receptor de Insulina -> IRS-1 -> PI3K -> Akt) encontra-se bloqueada pelo acúmulo de diacilgliceróis (DAG) e ceramidas intramiocelulares.

No entanto, a contração muscular ativa uma via de translocação de vesículas de GLUT4 completamente independente da insulina:

Contração Mecânica ⟹ Ca2+ citosólico + (AMP)/(ATP) ⟹ Ativação de CaMKII e AMPK ⟹ Fosforilação de AS160 / TBC1D1 ⟹ Translocação de GLUT4

Isso significa que, durante e imediatamente após o treinamento de força, o miócito capta glicose da corrente sanguínea com eficiência máxima, mesmo sem a presença de insulina funcional. Esse efeito sensibilizador persiste por 24 a 48 horas após a sessão, à medida que a enzima Glicogênio Sintase permanece ativada para restaurar os depósitos intramusculares de carboidrato.

O Impacto Real da Massa Muscular na Taxa Metabólica Basal (TMB)

O tecido muscular esquelético consome em repouso cerca de 13 kcal/kg/dia, enquanto o tecido adiposo branco consome aproximadamente 4,5 kcal/kg/dia. Embora essa diferença pareça modesta isoladamente, a remodelação metabólica provocada pelas miocinas amplia exponencialmente esse gasto:

  • O ganho de 3 kg a 5 kg de massa muscular metabolicamente ativa não apenas eleva o consumo energético basal de repouso, mas aumenta em até 300% a 500% o gasto calórico durante a realização de atividades cotidianas (NEAT) e exercícios físicos.
  • A elevação contínua da secreção basal de Irisina mantém pequenas populações de adipócitos beges ativos 24 horas por dia dissipando calor, tornando o organismo substancialmente mais resistente ao reganho de peso após dietas de emagrecimento.

6. Protocolo Prático de Treinamento Resistido para Otimização de Miocinas

Para maximizar a secreção de miocinas benéficas (Irisina, IL-6 muscular, Folistatina) e promover a supressão duradoura da Miostatina, o estímulo físico deve seguir parâmetros de volume, intensidade e descanso balizados pela literatura científica:

Protocolo de Prescrição de Força e Otimização de Miocinas

Diretrizes de Prescrição Balizadas por Evidências:

1. Intensidade de Carga e Proximidade da Falha:

  • Faixa de Carga: Utilizar cargas correspondentes a 65% a 85% de 1RM (Repetição Máxima), permitindo séries entre 6 e 12 repetições com cadência controlada.
  • Esforço Percorrido (RPE / RIR): As séries devem ser conduzidas até uma Classificação de Esforço Percebido (RPE) de 8 a 9, equivalente a 1 a 2 repetições de reserva (RIR) da falha concêntrica. A tensão mecânica próxima à falha é o gatilho biofísico indispensável para fosforilar a CaMKII e recrutar as unidades motoras de alto limiar (fibras do Tipo IIx), que possuem a maior densidade de produção de FNDC5/Irisina e a maior capacidade de inibição de miostatina.

2. Volume Semanal por Grupamento Muscular:

  • Volume Ideal: Prescrever de 12 a 18 séries válidas semanais por grupamento muscular, distribuídas em 2 a 3 sessões semanais (frequência 2x a 3x por músculo). Volumes fracionados garantem pulsos repetidos de IL-6 muscular e sustentam a downregulation crônica de miostatina ao longo de toda a semana.

3. Seleção de Exercícios:

  • Priorizar movimentos multiarticulares de cadeia cinética fechada e aberta com alta demanda de massa muscular total:
  • Agachamento livre, leg press e levantamento terra.
  • Supinos e desenvolvimentos de ombro.
  • Puxadas, remadas e barras fixas.
  • Exercícios que envolvem grandes massas musculares simultaneamente geram picos plasmáticos substancialmente mais robustos de Irisina e IL-6 sistêmica em comparação a exercícios monoarticulares isolados.

4. Densidade e Intervalos de Descanso:

  • Intervalos de 60 a 90 segundos: O estresse metabólico acumulado em intervalos moderados amplifica a depleção local de glicogênio e a ativação de AMPK, maximizando o pulso fisiológico de IL-6 sem comprometer a recuperação neural necessária para sustentar a carga de tensão.

5. Sinergia com Nutrição e Aporte de Leucina:

  • A sinalização mecânica do treino de força atua em sinergia com o aporte proteico. A presença intracelular de aminoácidos essenciais — especialmente a Leucina (meta de 2,5g a 3,5g por refeição) — é o sinal permissivo mandatório para que o complexo mTORC1 fosforile a p70S6K e execute a tradução proteica, inibindo a via atrófica da Miostatina.

7. Perguntas Frequentes (FAQ)

1. O treinamento aeróbico contínuo (cardio) é capaz de produzir a mesma resposta de miocinas que a musculação?

O exercício aeróbico contínuo (como corrida de longa distância ou ciclismo em intensidade moderada) estimula fortemente a biogênese mitocondrial e a secreção de IL-6 muscular e Irisina via ativação de AMPK. No entanto, o cardio tradicional é incapaz de promover a repressão sustentada da Miostatina e a elevação de Folistatina na magnitude que o treinamento resistido com cargas pesadas proporciona. Além disso, o cardio isolado não induz hipertrofia miofibrilar nem aumenta a Taxa Metabólica Basal de repouso na mesma proporção. A combinação ideal (Concurrent Training) associa o treino de força com sessões moderadas de aeróbio.

2. Pacientes com Esteatose Hepática (MASLD) podem reverter a gordura no fígado apenas fazendo musculação, mesmo sem grande perda de peso na balança?

Sim. Diversos ensaios clínicos randomizados demonstram que indivíduos com esteatose hepática submetidos a programas estruturados de treinamento resistido de 12 a 16 semanas apresentaram redução de 20% a 35% no conteúdo de triglicerídeos intra-hepáticos, acompanhada de normalização de enzimas hepáticas (TGO, TGP e GGT) e queda no índice HOMA-IR, mesmo quando o peso corporal na balança permaneceu praticamente inalterado. Isso ocorre porque o músculo substitui gordura por massa magra e as miocinas (especialmente Irisina e IL-6) ativam a beta-oxidação hepática e desativam a lipogênese de novo.

3. A suplementação de Irisina em cápsulas ou injetável existe e funciona?

Não. A Irisina é um peptídeo complexo de 112 aminoácidos que, se ingerido por via oral, é completamente desnaturado e degradado pelos ácidos estomacais e enzimas proteolíticas do trato gastrointestinal antes de atingir a circulação. Atualmente, não existem produtos farmacológicos ou regulamentados de Irisina sintética aprovados para uso humano. A única forma biologicamente ativa, segura e clinicamente validada de elevar a produção endógena de Irisina circulante é através da sobrecarga mecânica repetida proporcionada pelo exercício físico resistido.

4. Por que a IL-6 gerada no treino não causa inflamação sistêmica crônica como a IL-6 da obesidade?

A diferença crítica está no contexto molecular e na cinética de liberação. Na obesidade e no sedentarismo, a IL-6 é secretada de forma crônica e sustentada por macrófagos pró-inflamatórios (tipo M1) que infiltram o tecido adiposo visceral, sempre em conjunto com moléculas destrutivas como o TNF-α e a IL-1β. No exercício, a IL-6 é liberada de forma aguda e transitória diretamente pelo miócito sob estresse metabólico, sem a presença de TNF-α. Esse pulso agudo não estimula vias de inflamação destrutiva; ao contrário, ele induz a liberação de citocinas anti-inflamatórias (IL-1ra e IL-10) e atua como um potente sinalizador metabólico que estimula a lipólise e a captação de glicose.

5. Indivíduos idosos com sarcopenia severa ainda conseguem secretar miocinas e responder ao treino de força?

Sim. Embora o envelhecimento biológico e o sedentarismo prolongado estejam associados a níveis basais mais elevados de Miostatina e menor densidade de FNDC5 muscular, a literatura médica em gerontologia demonstra que o miócito de indivíduos idosos (inclusive com mais de 70 ou 80 anos) preserva a capacidade de mecanotransdução. O início de um protocolo progressivo de treinamento resistido em idosos induz downregulation imediata da Miostatina, estimula a síntese de Folistatina e melhora a sensibilidade à insulina muscular em poucas semanas, constituindo o tratamento não farmacológico padrão-ouro contra a fragilidade, sarcopenia e síndrome metabólica na terceira idade.


Referências Bibliográficas e Literatura Científica

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